quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Não sei se são meus olhos...
Mas eles vivem na mesma cor,
Da mesma cor.
Azul,
Amarelo,
Ou verde...
É sempre assim:
Juntos no vermelho,
Verde,
Na cor que há em mim.
Não sei se sou eu que vejo,
Ou se é tudo real.
Mas meus olhos acompanham a cor do céu,
Ou o céu acompanha os meus olhos.
E quando o céu estiver rosa,
Saberá que estou feliz.
E que meus olhos brilham.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Não ignore.
Abrir os olhos é fácil,
Um ato simples.
Abrir os olhos, enxergar a fundo o que se vê,
E deixar tudo, tudo entrar na cabeça,
É um pouco mais difícil.
Saber deixar tudo entrar, e separar o ruim do bom,
O certo do errado,
Ainda mais complicado.
Os olhos ardem com algumas coisas que vemos,
E os ouvidos sangram quando ouvimos.
A boca fala,
E o coração sente.
É assim que vivemos,
Enganando os olhos,
A cabeça,
Ouvidos e boca.
Mas o coração,
O coração enxerga tudo,
Sente tudo e ouve tudo.
E as atitudes falam muito alto.
Até o dia em que não conseguiremos mais ignorar o que ouvimos,
E aquilo vai ficar repetindo e girando em nossas cabeças.
Ao mundo
Avaliando o tempo que passou,
E nada que eu senti...
Prefiro dor e incerteza,
Do que nada.
Melhor jogada ao mundo, pro mundo,
Do que guardar o mundo inteiro dentro de mim,
Sem poder contar nada pra ninguém.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Meu lugar, meu dever.
A casa tem que estar com um cheiro muito bom, um aroma de flores do campo. Ele gosta tanto... Às vezes as crianças têm um pouco de alergia, mas nem dá tempo para prejudicá-las, pois logo as ponho no quarto para dormir. Elas me perguntam por que eu e ele não conversamos muito. Para ela, eu respondo que um dia ela saberá, e que vai me entender. E para ele, digo que um dia fará o mesmo com sua mulher, e que ela terá que entendê-lo.
Pobre homem o meu, trabalha tanto para nos dar esse conforto. É pouco, mas basta. Penso que não retribuo como eu deveria. Nunca estou tão bonita como as mulheres das revistas que ele guarda embaixo da cama. Ele pensa que eu não vejo seu sofrimento por não ter uma mulher tão bonita quanto aquelas. Às vezes penso que ele é muito para mim. E eu, tão surrada, tão feia, velha... Já não faço questão de me olhar no espelho. Ele também não faz mais questão de me olhar.
Eu fecho as cortinas nos fins de tarde para o sol não entrar. Ele detesta sentir calor e é intolerante quanto a isso. A luz incomoda seus olhos quando ele vai ler o jornal. Eu faço uma massagem em suas costas, sabendo que quando ele pedir para que eu pare, é porque estou sendo inconveniente.
Já estou acostumada, o dia inteiro é assim. Esperar por ele. E quando ele chega, tenho que estar como ele quiser, para ele.
Me sinto culpada quando penso em ter um tempo para mim... Eu deveria estar e ser cem por cento para meu marido, eu faço isso. Mas meu pensamento não é cem por cento nele, e isso é errado.
Um dia, – escute bem, pois minha vergonha é tanta que só falarei uma vez – eu acabei desobedecendo-o e ele acabou se irritando comigo. Disse que eu não fazia nada direito, e que já não servia mais para nada. Que nem à noite eu o satisfazia. Que eu já não tinha mais toda aquela disposição igual a que eu tinha com vinte anos, no nosso casamento. Eu me senti tão humilhada, tão injustiçada e me senti tão mal, que eu retruquei, já me arrependendo. Eu respondi para o meu homem, com total falta de educação. Ele não merecia isso, e eu não tinha o direito de deixar aquelas palavras saírem de minha boca. Mesmo assim, a briga foi feia. Não quis mais tolerar. Disse a ele que ia embora, para nunca mais voltar. Deixei as crianças com ele, pois delas eu não poderia cuidar sozinha. E eu fui.
Fiquei na casa de uma amiga que morava sozinha em um apartamento no centro. Foi o suficiente para que toda a vizinhança e parte da cidade soubesse de nosso conflito, e também para que eu ficasse mal falada. Uma mulher, casada, morando sozinha com uma solteirona em um apartamento. Quantas coisas não se podia fazer por lá?
Eu tentava ocupar meu tempo, que agora era livre, fazendo outras coisas. Lia, arrumava o apartamento de Lígia, passeava pelo parque. Mas nada disso adiantava. Parecia que havia um espaço enorme vazio em mim. Eu precisava fazer alguma coisa para mim, por mim. Mas eu nem sabia como começar.
Fui ao salão de beleza, mas lá, as conversas das moças eram todas sobre o mesmo assunto... Homens, filhos, empregadas... E falando em filhos, fazia tempo que eu não via os meus. Volta e meia eles apareciam lá na casa de Lígia, e eu dizia para que esperassem, que as coisas iam se aprumar.
Nada adiantava. Eu passava todo o meu grande tempo livre procurando algo que me fizesse feliz, algo que fizesse eu parar de roer unhas, que parasse com essa minha compulsão por servir os outros, de querer o bem estar dos outros antes do meu bem estar. Parecia que eu estava em uma guerra comigo mesma. Meu corpo cansado contra minha alma nova, que não viveu nada de prazeroso até agora.
Grande parte desse tempo livre eu pensava nele. A maioria do tempo era assim. Era a imagem dele que eu via pelos meus olhos, e algumas vezes eu fui até a janela por pensar escutar a voz dele lá embaixo. E se ele não me quisesse mais? E se ele não estivesse sentindo nenhuma falta de mim? E se eu nunca mais pudesse me acalmar satisfazendo ele e servindo ele como ele deveria ser servido?
Foi nessa última pergunta que eu encontrei o meu lugar. Toda essa aflição que eu sentia tinha apenas uma solução: voltar para ele. Assim eu me acalmaria. Fazer para ele o que ele quer, é minha paz.
Então, despedi-me de Lígia, seu apartamento também estava ficando pequeno para nós duas. Eu já estava prejudicando suas visitas de solteira. Agradeci por esse tempo todo, e ela disse que eu poderia voltar sempre que precisasse.
“Sabe, Rosana, têm algumas mulheres que nasceram com defeitos, nasceram diferentes. Mulheres servem para seus homens, mulheres devem achar seus homens. Há aquelas que não acham... Eu sou uma delas. Sou de todos eles, e eles são todos meus. Não há nenhum que me queira. Eu não me importo, pois não sou mulher para isso. Eu sou uma daquelas exceções. Você é a regra. Você nasceu para ter um homem. O seu homem. E você tem. Vá e faça o que você tem que fazer.”
Eu fui embora. Lígia estava certa. Não consigo entender muito bem como é sua vida de solteira, e porque ela quis assim. Vai ver foi o que a vida deu para ela. Pobre Lígia.
Voltei para o meu homem. Quando cheguei em casa uma moça jovem, ruiva de cabelos cacheados, muito branca e muito bela estava saindo. Poderia imaginar que ele não tivesse ficado sozinho esse tempo todo. É o que os homens fazem quando estão sozinhos. Eles não nasceram para ficar sozinhos, embora às vezes estejam. Mas eles sempre têm uma mulher para se consolar, por mais que a escondam do mundo. Essa mulher escondida, é que dá força para este imponente homem aparecer. E vai ser sempre assim. A mulher dá força sem que ninguém a veja, e o homem mostra essa força para que todos vejam.
Acorde
Mesmo parecendo confuso, no momento não estou me sentindo dormente, mas sim, parece que eu estou acordando dessa dormência. As músicas tão fazendo cosquinha no meu peito... Sabe como é? Se você já escutou uma música muito boa e que te fez muito bem, você sabe o que é cosquinha no peito.
Mas mesmo assim, as vezes uma musica muito boa fica sem fazer cosquinha no seu peito. E provavelmente não é a música, mas sim, seu peito. E era disso que eu estava falando.
Quando um sol brilhante não tem mais graça, ou quando a chuva não te causa medo nem tristeza, quando você não se importa com o calor (eu sempre me importo, mas pode ser um sintoma), quando fazer nada passa despercebido, ou quando fazer tudo passa despercebido, acredite: você está dormindo acordado e só você pode se acordar.
Como? Não tenho a mínima idéia. Mas suspeito que seja fazendo alguma coisa diferente, ou ser desafiado por alguém, ou então até descobrir que alguém não te quer.
Nem que seja pra apertar o peito ao invés de fazer uma cosquinha, é bom acordar.
No meu caso, acho que foi porque fugi um pouco da rotina, e fui para a fazenda da minha família. Não to querendo achar um grande significado por trás disso tudo e surpreender ninguém. Não foi que eu descobri que a natureza é extremamente necessária, ou que eu me sinto um pedaço daquele lugar, porque tudo isso eu já sabia. Muito menos pra dizer que o planeta vai se decompor por causa do aquecimento global (porque eu nem sei se vai), nada disso. É muito mais simples: sair da rotina, sair da mesmice, sair do computador (é, verdade), sair das mesmas músicas de sempre, sair, sei lá, só a palavra sair já diz tudo.
A gente não precisa ir pra Disney, Lisboa, Londres, Paris pra sair da rotina. Só ir visitar a Tia que a gente nunca vê, ou a avó que a gente não tem muito contato... Só pra sentir, sabe, aquela cosquinha no peito que eu tanto falo. E eu falo só porque é bom, só por parecer que a gente tem a vida saltitando aqui dentro.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
*
Nesse escuro,
Onde só eu vivo,
Achei o meu lugar.
Doce escuro,
Ninguém quer disputar.
Eu tenho paz,
Calma,
E eu sou eu,
Mesmo que ninguém consiga olhar.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Novo, mais uma vez
Eu sorri e disse adeus. Passou algum tempo, eu me senti como se meu olhos tivessem se separado da minha cabeça, observando tudo, sem limitações. Eu não tinha peso, e tudo parecia claro. Cores claras. Parecia um quarto de bebê.
Até que eu senti meus pés no chão. Não era como algodão, que nem eu pensava... As nuvens são parecidas com claras batidas em neve... Não me contive. Me abaixei e peguei com o dedo um pouco, botei na boca. Não tinha gosto de nada. Me aliviei, pois meus pés não ficariam grudando por causa do açúcar.
Nada parecido com o que eu imaginava, não encontrei minha avó, nem meu tio Julio. Não tinha nenhuma pessoa na entrada. Haviam ovelhas, feitas do mesmo material que havia no chão. Elas falavam, sim. Achei estranho, mas encantador.
Fiquei com medo, cheguei a pensar que lá tudo é tão diferente, que ovelhas poderiam falar, e humanos não. Ainda não tinha aberto minha boca. Abri, e disse meu nome. Sorri ao dizer meu nome. Pelo menos isso eu tinha garantido, minha boca e meu nome. Logo, as ovelhas me falaram que eu poderia esquecê-lo. Que aqui, ninguém precisaria de nome para se referir a ninguém. Bastava pensar em tal pessoa, que aquela pessoa saberia que gostaríamos de falar com ela. Sem nome, sem nada.
Num lugar tão surpreendente assim, já me imaginei vivendo perfeitamente, comendo morangos com chocolates e bebendo suco de morando todos os dias. Eu até viraria um morango. Também não me importaria, pois eu poderia falar mesmo assim. Mas daí pensei bem, e me vi em uma torta branca cheia de creme, sendo devorada por alguns mosquitos cantantes.
Lá, os mosquitos não zumbiam nos ouvidos quando se tentava dormir, cantavam uma música de ninar, muito confortante... Se dormia muito, muito... Rara são as vezes que eu me lembro de alguém de minha família, de meus amigos. Não sei quantos anos eu tinha, e o meu nome, eu realmente esqueci. Se eu tinha filhos, não sei. Eles podem pensar em mim, eu não penso mais neles...
A ovelha que governa tudo aqui, não sei por quê, não nos diz o que vêm depois de tudo isso... Assim como não sabíamos antes. Mas eu tenho uma leve impressão que nos colocam aqui dentro, com tapetes de claras batidas em neves, com ovelhas de claras batidas em neves, mosquitos cantantes e tudo mais, para nós irmos esquecendo de tudo... Devagar, sem nem sofrer. Para que um dia, eu possa voltar para lá. E ganhar outro nome, talvez. Que um dia vou ter que esquecer de novo.
Eu lá vou saber quantas vezes eu fui e voltei.