quarta-feira, 29 de agosto de 2012


Eu vi uma coruja
Em uma árvore.
Ela não era roxa,
Nem branca, nem preta.
Ela não tinha nenhuma cor.
Na verdade,
Era o galho de uma árvore.

Para expulsar a dor


Eu não escrevo mais
Eu choro o dia inteiro
Essas lágrimas de sal
Correm pelo banheiro.

Eu não consigo mais
Passar de quatro versos,
Agora tenho sete
Mas estão em aberto.

A vontade que eu tenho
É de me apagar por dentro
Ainda me contenho
E cai no esquecimento.

Eu só tenho palavras
Nem um pouco enriquecidas
Eu uso um remédio
Que me deixa esquecida.

Eu não sei mais
Fazer  tu querer  ler.
E eu não conjugo verbos
Quando eu estou a sofrer.

E dói tanto no peito
Dói como martelada
Ser tão, tão amada
E não sentir mais nada.

E é assim que eu vivo
Eu vivo como morte
E já não me importo
Se tenho azar ou sorte.

As minhas estrofes
Parecem tão largadas
É que vou escrevendo
Como se fosse nada.

Não lembro o que disse
No verso anterior
Só sei que não consigo
Mais ser um escritor.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O primeiro ateu

Amassou o pão que o diabo comeu.
Sovou tão forte que a garganta ardeu.

Passou aquela manhã toda na cozinha, 
rezou um terço pro pai, pra mãe e pra menina.

E se sentiu de repente contrariada
que era tão boa, mas foi obrigada
a sovar o pão pro diabo.

Ele merecia, coitado.
E parar consolo, ao ter pena do capeta, 
"Quando Deus não quer, Deus não deixa."

Então, se ela fez, é porque podia.
E assim era mais fácil, 
para Maria, aceitar o mal que fazia.
Assim como Juca, Amélia e Sofia.

Rezavam pro mesmo Deus 
quando matavam, morriam e surravam.
E a desculpa, logo vinha:
Deus é o mesmo pra todos.

No entanto, um dia, Maria.
Ao ver a morte da filha.
Pela bala do revólver 
de quem a menina não queria namorar.

Maria falou, não é justa essa vida.
E algo a fez não acreditar.
"Que Ele escreve certo por linhas tortas, o que!
Esse invisível, danado, hoje vai me pagar!"

Então, hoje foi ela quem castigou Deus.
Com o pior castigo que Ele teria.
Ele jamais, um dia, duvidaria.
Que alguém iria dele duvidar.

Até hoje, o diabo ri de Deus, 
agradece Maria.
A primeira pessoa que ousou
à Ele abandonar.

















Culpado

Parou e olhou
o dia que havia passado.

Não pôde sorrir,
nem suspirar aliviado.

Percebeu que aquele dia,
nublado,
resumia a vida toda.

E que não importava
se estava só ou acompanhado.

E o dia nem contava
se era terça ou feriado.

Acontece que por dentro
era todo abandonado.

E a vida toda passava
em mais um dia desperdiçado.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Hoje o dia dói em mim,
Como se muitos anos doessem.
Hoje o dia é nublado,
como se num verão
nascesse um inverno
desajeitado.
Hoje um copo quebra
como se quebrasse meu olho de vidro.
E hoje eu tive um suspiro,
como quem respira tudo de uma vez só.
Sobe, escolhe, encolhe.
Age rápido como engole
algum resquício de constrangimento.

Invade o clima de deserto,
abre a cortina
do cômodo desperto.

Deixa ecoar o tempo
que escoa.
Aproveita e coa ruim
e faz apenas o que é bom.

Sem sapatilha e sem tutu,
não dança um passo
que escolheram.
Só levanta poeira
pra quem quiser baixar.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Não sei se isso está certo

Continue andando
sentindo a brisa
como o arranhão
de um gato.

Não peça carona.
Não perca o jeito
de trocar os pés
com passos de Ballet.

Deite em uma calçada,
mas não perca de vista
o além de quem está de pé.

Bata nessa boca
se quer reprimir.
Deixe a língua solta,
vão querer te ouvir.

Não ranja os dentes,
já está bem cuidado.
Como uma semente
de um pé já plantado.

Não sei pra quem dou
todo esse conselho.
Talvez eu devesse,
falar para o espelho.

domingo, 22 de abril de 2012

Palavras cuspidas

Cobiçou o olho de gato do homem da outra
e esqueceu do olho barrento do seu.
Calçou os sapatos vermelhos,
não lavou a louça, e a maquinada não estendeu.
Passou o justo vestido, cortou o comprido
e não deu oi pra vizinha.
Passou reto pelo carteiro,
pegou o isqueiro e acendeu um cigarro.
Falou que não tinha dinheiro pra pagar o padeiro
e nem passar no mercado.
O cabelo que nunca foi loiro
a moça foi lá e pintou.
E qualquer homem na rua que passa,
até quem é mudo, agora berrou!
O porteiro sempre cadeado,
abriu o portão e não se importou!
O pedreiro nem quis dar cantada,
sentou num tijolo e só lamentou.
Voltou para casa pensando no olho
cristalino de gato do marido dela.
E como a "dela" não era ela mesma,
olhou pro vestido bem sujo de barro.
O barro era do olhar dele,
do seu marido próprio, que não era amado.

terça-feira, 27 de março de 2012

Deve ser assim estar morto

Ver alguém sentir saudade e se sentir tranquilo por isso.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pra quem pensa sem determinar

As ideias se rastejam pela escada,
escorrendo de degrau para degrau,
deixando a marca no chão.

O chão de quem pisa forte,
de quem não pensa nem em vida,
nem em morte,
e sobrevive para ocupar um lugar.

As ideias, sem administração,
gastaram o novo sem nenhum destino,
ficaram ali como se fosse algo velho.

Quem quer pensar colorido,
quebrar, com a cabeça, o muro.
Às vezes esquece de lembrar.

Acaba deixando as ideias passarem.
As ideias que hoje estão no mesmo degrau
da pedra que caiu do sapato
de quem caminha sem olhar por onde.